Tem dois longos dias que tenho andado com a poeta Elisa Lucinda no meu banco de passageiro. Eu dirigindo estrada afora (casa trabalho x trabalho casa) e ela ali, do meu lado, recitando teus poemas. Ela rindo, chorando, sarcástica, desbundada, abocetada, emputecida, encantada. Ali, no meu banco de passageiro, rangando a BR comigo de manhã e de noite, e eu de pau duro pela poesia dela, ejaculando os versos dela. E ela...olhando para mim ainda mais incitada a prosseguir...pegando na minha perna, confundindo-se à marcha. quase não passo a quinta...minhas pernas vacilam e meus ouvidos sentem tesão. Oh! Elisa, tão Lucinda, tão tentação!!!rogerio s.
Texto para uma separação
Olhe aqui, olhos de azeviche
Vamos acertar as contas
porque é no dia de hoje
que cê vai embora daqui...
Mas antes, por obséquio:
Quer me devolver o equilíbrio?
Quer me dizer por que cê sumiu?
Quer me devolver o sono meu doril?
Quer se tocar e botar meu marcapasso pra consertar?
Quer me deixar na minha?
Quer tirar a mão de dentro da minha calcinha?
Olhe aqui, olhos de azeviche:
Quer parar de torcer pro meu fim
dentro do meu próprio estádio?
Quer parar de saxdoer no meu próprio rádio?
Vem cá, não vai sair assim...
Antes, quer ter a delicadeza de colar meu espelho?
Assim: agora fica de joelhos
e comece a cuspir todos os meus beijos.
Isso. Agora recolhe!
Engole a farta coreografia destas línguas
Varre com a língua esses anseios
Não haverá mais filho
pulsações e instintos animais.
Hoje eu me suicido ingerindo
sete caixas de anticoncepcionais.
Trata-se de um despejo
Dedetize essa chateação que a gente chamou de desejo.
Pronto: última revista
Leve também essa bobagem
que você chamou
de amor à primeira vista.
Olhos de azeviche, vem cá:
Apague esse gosto de pescoço da minha boca!
E leve esses presentes que você me deu:
essa cara de pau, essa textura de verniz.
Tire também esse sentimento de penetração
esse modo com que você me quis
esses ensaios de idas e voltas
essa esfregação
esse bob wilson erotizado
que a gente chamou de tesão.
Pronto. Olhos de azeviche, pode partir!
Estou calma. Quero ficar sozinha
eu co'a minha alma. Agora pode ir.
Gente! Cadê minha alma que estava aqui?
No momento não estou
Olhando a cara dos dias,
vejo como é sórdida tua secretária eletrônica:
Ela mente pra mim na mesma tônica: doublé de seu medo...
Vou te contar um segredo:
Eles venceram.
Venceu a mesquinharia, a pequeneza, a teoria rasa, a safadeza...
No meio da luta,
você preferiu ser o nêgo filho da puta da história que escreveram pra você encenar,
da promessa que fizeram pra você cumprir,
pra você pagar.
Essa noite, sua covardia repete o açoite:
aceita a mesma escravidão pra te enganar.
Ai, como é mórbida tua secretária eletrônica,
roubou meu batom e no mesmo tom me diz que você não está.
Como uma armadilha de sonora trilha,
pede um recado após o sinal...Não dou!
Antes disso terá um longo curto-circuito entre as pernas,
essa tua secretária calhorda, essa tua secretária moderna,
tão sonsa, tão palerma. Ligada por ti pra te sacanear!
Acionada por ti pra te carear os dentes da alma
e depois te pede pra sorrir pra sua própria demência.
Uma ridícula dona de casa chamada Ausência!
Elisa Lucinda
(Nascida orgulhosamente em Vitória, Espírito Santo; 2 de fevereiro de 1958) poeta, escritora, jornalista e atriz brasileira.
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