Os irmãos Zapalá (Eu morro de medo da mídia)

Por Rogério Santos

O folk americano surgiu na década de 60 e trazia uma combinação de música folclórica com rock. O grande representante desse estilo musical é, sem dúvida, Robert Allen Zimmerman, vulgo Bob Dylan. Inclusive escolhido pela Revista Rolling Stone em 2004, como o 2º melhor artista de todos os tempos, e uma de suas canções, “Like a Rolling Stone”, a primeira melhor. De todo modo, o percursor do folk foi o lendário Woodie Guthrie, um nova-iorquino falecido em 67. Mas esta é uma outra estória.


O folk influenciou muita gente por esse mundo afora. Além de Bob Dylan seguem na fila Cat Stevens, Van Morrison, Joni Mitchell, Nick Drake, Leonard Cohen, Neil Young e aqui no Brasil temos o Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawai), descaradamente discípulo desse gênero.


Já por aqui, nos tenros anos 70, nasceu um outro gênero musical resultante do que foi tenramente importado do folk americano: O rock rural, que ainda incorporava influências country anglo-saxônicos ao estilo da toada lusitana, com uma linguagem poética que se refere aos temas do campo, resultando numa musicalidade com ritmo de balada pop.


Criado pelo trio Sá, Rodrix e Guarabyra, com o tempo o rock rural começou a fazer seguidores, como Som Imaginário, Secos e Molhados, O Terço, Ave Sangria, Amelinha, Hildon, Ednardo, Zé Ramalho e, mais, adiante o Zé Geraldo.


Muito bem, quando ouvi pela vez os irmãos “sertanejos” Vítor e Léo eu fiquei curioso. Havia algo estranho na toada deles. Ia além do “sertanejo” ou não tinha nada a ver com ele. Depois descobri que essa impressão não era somente minha. Há algo neles que vai muito além desse mundo em reconstrução chamado sertanejo. A melodia, o arranjo, os acordes da guitarra ou violão (as vezes longos), enfim, o som é diferente das vias expressas construídas por esse universo chamado sertanejo. Vieram pelo mesmo caminho, mas ali pelas marginais. Tem um “quê” de cult, que não remete a nada do que ouvi até hoje do sertanejo. Mas sim do folk americano e do rock rural brasileiro.


Por outro lado tem um algo mais importante:


Os irmãos Zapalá Pimentel (vulgos Vítor e Léo), naturais de um confim remoto mineiro chamado Abre Campo, são muito mais eles mesmos, especialmente quando falam, porque tem opiniões centradas, maduras e ponderadas acerca de tudo que discorrem. Estão longe do glamour bobo e ideológico dos outros sertanejos. Eles são caipiras sofisticados e beira o “cult’.


São de um felling invejável. E hoje estão mais próximos do Almir Sater, Renato Teixeira, Zé Rodrix, Hildon, Raimundo Sodré, Amelinha. Canções como “Eu e Deus no Sertão”, “Vida boa” ratificam isso. Ou, se conseguirem sobreviver às ditaduras da mídia e da gravadora podem fazer o teu próprio movimento e trazerem outros consigo, mesmo que dissidentes. O país carece disto, de reinvenções. Até porque esses meninos soam universal, mas com tuas próprias convenções.


Vítor e Léo chegaram no continental mercado fonográfico brasileiro sem nenhuma pretensão aparente. Como quem chega distinto, deslocado e em silêncio numa grande festa e no fim da noite, já no finzinho, pega a viola e toca alguma coisa prá relaxar a euforia de todo mundo. A partir daí, a turma se deleita, se apaixona e os convida para festas futuras, mesmo que não sejam da mesma corrente. Ao contrário, eles são uma reinvenção, uma transformação do folk/rock rural brasileiro à beira do pop que os rodeia, e não essa coisa barulhenta que virou o sertanejo contemporâneo. Eles, os irmãos Zapalá, subvertem uma mesmice preguiçosa que jaz na música brasileira e, importante - resgatam lá do passado o sonho caipira e libertário que era o folk/rock rural, mesmo que estejam engajados na corrente errada, esse tal sertanejo. Eles são o nirvana mais brando, mais calmo, o “tao” campestre. E eu morro de medo que a mídia destrua tudo isso.


E, parafrasendo o Caetano (da canção “Ele me deu um beijo na boca”) eu finalizo esse ensaio crítico dizendo:


E a “mídia” que não toque na poesia!!!...porque eu morro de medo da mídia!

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