Espera Ltda.

Trablhando na Espera. Ando trabalhando na empresa chamada: Espera. Vivo de um cansaço, por pura ansiedade. No meu pulso verifico os minutos. Verifico a hora de bater o cartão. Cartão que passo no travesseiro. Despeço-me assim do dia. Meu patrão é Cronos, rígido,quadrado. Ele que me dita os afazeres. Ele no meu pulso esquerdo. Lento, muito lento. É o trabalho da burocracia. Sou uma burocrata. A burocracia do tempo. Exausta. Estou esgotada. Dores me tomam o corpo. E não posso faltar. Não posso ligar pra dizer: "Olha Cronos, hoje eu não estou muito bem." Não posso me ausentar da labuta. Trabalho na Espera. Pior ainda: trabalho na expectativa. E dizia o

Flaubert que a expectativa era uma doce nostalgia. Doce? Sim, porque algo que nunca aconteceu permanecerá na memória como algo que poderia ter sido e adocica. Torna açúcar o que poderia ter sido amargo. Expectativas. Esqueça o velho francês que as expectativas podem matar. Veja meu esgotamento mental e físico, causados pelas fatalidades das esquinas. É nas esquinas que trabalhamos. Lá, sentada, observando ele no pulso esquerdo. É lá, nas esquinas, o acontecer das fatalidades. Fatalidades só acontecem em esquinas. As expectativas podem matar. O trabalho é perigoso. Cadê meu capacete?

Sou pra ontem. Penso rápido demais, leio igualmente, vivo pra ontem. Vivo o ontem de maneira tão intensa que entendo pouco o que se passa hoje. Meu trabalho se torna incompreensível. Preciso estar atenta ao hoje. Estar atenta ao trabalho. Mas fico pelo expediente arrumando sensações que me façam escapar essa fadiga. O hoje é uma fadiga. Cadê meu direito ao plano de saúde, meu direito as folgas ? Patrão mais filhadaputa. Sou serva dele. Ele é o meu senhor. Sou escrava dele. Ele me controla.

Sou uma funcionária cretina, eu sei. Tenho sido uma funcionária cretina. Tenho chegado em ponto, me dedico na empreitada. Cretina, esforçando-me. Reclamei. Reclamo muito com a colega do escritório. Reclamo muito do patrão e da empresa. Já pensei em fazer greve. Já pensei em pedir um aumento. No caso, dessa firma, o aumento seria um adiantar dos dias. Adiante-me dias, implorei. Tenho zelo pela minha saúde.

Eu tenho zelo, o patrão não. Trata-me com descaso. Preciso reagir. Preciso de algo mais drástico. Preciso de uma revolução contra essa multinacional maldita. Preciso de um atentado contra o chefe. Queria dar-lhe três tiros na cara. Até assumiria. Até diria-me culpada. Deixaria que me prendessem. Não teria intenção de fugir. Seria heróico matar Cronos. Assumiria como um mártir, o atentado. Sacrificada em nome de uma causa. Empresa mais cretina. Milhões de funcionários e nenhum a partilhar comigo a angústia.

2 comentários:

  1. tempo - sacrfício - angústia. Acrescentaria a palavra martírio...ultimamente faço uso dela.

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  2. Fazer nada é trabalho! e não fazer nada também é trabalhoso, porque se está fazendo "nada", está fazendo alguma coisa, está fazendo"nada", e o que é fazer nada? além de uma forma exaustiva de trabalho...

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