Como se a escolha das palavras fossem pinceladas, taco a tina preta na tela branca. Escolho as palavras como quem faz amor, algumas vezes. Outras vezes escrevo como quem trepa. A intensidade variada mas assim é a espécie humana, nunca estável e estática.
Preciso noutras ocasiões de um cuidado radioativo, coloco minha roupa contra doenças a longo prazo, tamanha a força que imputo no ato. E os questionamentos obsessivos, todos eles. Todos incapazes de me fazer parar de pensar.
Já procurei a explicação de mais ou menos uns quinze autores que admiro e observo. Já encontrei a resposta de cada um deles para a pergunta que pisca em neón roxo, perto do meu hipotálamo:
"Pra que escreve?"
A Simone disse isso: "(...) Toda dor dilacera; mas o que a torna intolerável é que quem a sente tem a impressão de estar separado do resto do mundo; partilhada, ela pelo menos deixa de ser um exílio. Não é por deleite, por exibicionismo, por provocação que muitas vezes os escritores relatam experiências terríveis ou desoladoras: por intermédio das palavras, eles a universalizam e permitem que os leitores conheçam, em seus sofrimentos individuais, os consolos da fraternidade. Em minha opinião, essa é uma das funções essenciais da literatura, e o que a torna insubstituível: superar a solidão que é comum a todos nós e que, no entanto, faz com que nos tornemos estranhos uns aos outros (...) "
Mas é? Então sou solidária? É nesse sentido? Mas para tal tipo de sensação acerca da escrita é preciso que tenha havido um contato com quem lê. Para que se possa saber dele se é possível encontrar naquele amontoado de sintaxes algum tipo de consolo. Eu não sei, talvez não seja lida por ninguém. Talvez a explicação da Simone seja metade da minha.
O Fernando disse que: "Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso."
O fato é que eu realmente esqueço, pelos cadernos frases soltas, pelas ondas cibernéticas sítios abandonados, deixo de fazer idéia do que escrevi. Não lembro. Imagino que o recalque um dos mecanismos de defesa do ego me proteja de alguma coisa que não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe, o que me tranquiliza. Traduzindo: O recalque, o esquecer, é uma maneira de evitar com que tenhamos que lidar a todo o tempo com o que nos angustia. Desse modo penso que a literatura não pode ser a maneira mais agradável de ignorar a vida. Pode até ser que seja apenas um intervalo comercial. Ao findar de qualquer leitura cai-se no vazio da vida, pré-existente obviamente. Concordo com o Fernando em partes.
O Mário nas suas cartas diz que o primeiro e importante passo é que o pretendente a escritor seja um leitor compulsivo. Para ele a vocação literária: "não é um passatempo, um esporte, um lazer refinado que se pratica nas horas vagas. É uma dedicação exclusiva e excludente, uma prioridade à frente da qual nada pode passar, uma servidão livremente escolhida que transforma suas vítimas (suas ditosas vítimas) em escravos”
E tenho que concordar: é isso. O problema é que em tal livro, que encontra-se tal frase perfeita, vi capítulos técnicos. E discordo com veemência dos que escrevem com disciplina ou o fazem como um árduo trabalho. E é assim que o Sr. de frase-comovente trata sua própria literatura. A rigidez que deixo pros militares. Fico com ele pela metade também.
Outro que falava sobre a leitura antes da escrita é o Borges. Na verdade esse é comparável ao Nelson, no que diz respeito as frases. Excelente frasista. O que me dificulta o trabalho na hora de escolher uma que se atenha ao meu tema de maneira sucinta. O Borges me dá o trabalho de escolher o que ele disse de melhor, ou pelo menos que me embrulhasse as ventas, sobre isso ele disse: "Sem leitura não se pode escrever. Tão-pouco sem emoção, pois a literatura não é, certamente, um jogo de palavras. É muito mais. Eu diria que a literatura existe através da linguagem, ou melhor, apesar da linguagem."
E eu que citei a frase do Barthes outro dia sobre a linguagem ser fascista, colho na árvore do velho mago argentino a combinação do que acho correto: A leitura permite a vivência nesse imaginário calcado com a linguagem. E em segundo lugar: Sem emoção é apenas um jogo de palavras, para isso vou incluir outra dele: "Se tens algo a dizer ou uma mensagem a comunicar, escreve uma carta. Um romance é para contar uma história."
O meu Wolverine-velho-de-guerra também de uma generosa contribuição, para que se prove que o problema da escrita não se encerrou nos portões das Letras, escrevendo um livro inteiramente dedicado ao assunto. É discordante tanto do Borges quanto do Mário e diz que: "Uma pessoa somente deve ler quando a fonte de seus pensamentos próprios seca"
Com seu peculiar sarcasmo, o cara que me faz rir lendo filosofia, explica que em seu contexto histórico havia essa supervalorização do que já estava produzido. De modo que nada parecia original. Sustenta ele que para ser um bom escritor era preciso: fugir do palavreado e do floreio de linguagem; ser conciso; não querer ostentar aquilo que não se tem nem tampouco se é; dedicar mais tempo à atividade de pensar, analisar, projetar e concatenar idéias antes de lançá-las de forma aleatória no papel.
Excelente aula que lhe dá direito a mais um parágrafo dessa escriba compenetrada no estudo. Diz ele: Fujam dos parnasianos.
O injustiçado Rilke, que teve o título do livro clonado pelo Sr.Mário e sequer foi citado no mesmo, concorda com o Schopenhauer e parece que é com ele que eu fico pra terminar essa extensa mostra de autores que me dão justificativas diante da pergunta que sozinha não sei responder. Em "Cartas a um jovem poeta", responde:
"Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou (...)"
P.s: Se estão todos os citados foram pelo primeiro nome é porque a intimidade com que vos tenho em meu rol de amigos é maior do que as formalidades advindas do desconhecimento alheio, para que não lhes seja em vão tal leitura clique no link e saiba quem são: Simone, Nelson, Borges, Mário, Wolverine-velho-de-guerra, Rilke, Barthes e Fernando.
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