Em seu fraque solene estava o mágico, no teatro das pesadas cortinas rubras. Do palco via-se uma esparsa luz que iluminava a primeira fila, provável erro de ângulo, do funcionário que se não me engano estava curtindo as canecas e as rúfias nas docas..
Na primeira fila se encontrava uma pequena representante real. O teatro aberto para a pequena princesa. Uma penumbra fazia com que a princesa visse menos o mágico quanto natural o fosse. O mágico começou com os truques habituais e cada gesto seu era acompanhado por meticulosos olhos.
Via-se a palidez do mágico no afã de fazer o melhor que podia para tão compenetrada fantasia. Posto que resolveu tirar de vez o coelho da cartola, truque nem bem treinado porém a disposição, iria mesmo impressioná-la e se sentiria íntegro diante do olhar que pedia.
Fez o anúncio dando uma proposta dionisíaca ao ato. Mostrou-lhe então como era negro o fundo da cartola, prestando a tensão acompanhava a menina, de dentro de toda aquela escuridão sairia movimento? O mágico mexeu e sacudiu mais um pouco, preparando-se para puxar o fundo falso e fazer sair a espera.
Suas suadas e largas luvas brancas impossibilitavam que ele conseguisse puxar o fundo falso, sapateou mais alguns segundos de desespero e encarou a pequena, que suplicava pela magia, cadê a magia, eu quero a magia, dê-me fantasia, implorava com aquele franzir de testas que lembra muito um poodle pedindo carinho.
Com a cartola na cabeça, erigindo a postura, o velho mágico desce do palco, vai até a menina, senta-se ao seu lado e sussurra:
- (...)
Não deu pra ouvir mas imagino que o mågico moribundo disse o seguinte:
- Nunca espere que o coelho realmente saia da cartola.
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