por rogério S.conheci o vicente cecim nos ternos anos oitenta. finais prá ser mais preciso, algo por volta de 87 por ai. este, por sinal, foi um dos anos mais duros de minha vida: a descoberta da poesia e tudo que nela se esperimenta. aí, de uma biblioteca ou um brecho (confesso que não me recordo precisamente) eu esbarrei desastrosamente (ou estava escrito) com o vicente e sua "viagem a andara".
em verdade, a viagem era um cardápio exposto em forma de letras e retangular, como nós mesmos, à quem quisesse adentrar as matas brutas e escuras de um universo chamado nós mesmos. era uma prosa que, gradualmente, nos fazia adentrar na mata do nosso "eu" constante e esquecido. não existem paradigmas aí não. era isso mesmo. o autor nos fazia vasculhar o nosso "eu" mais preciso e obscuro. me apaixonei pelo livro e me apaixonei pelo "eu" (recorrente) bruto. então tomei coragem e decidi naquele ano que iria escrever. escrever sobre a minha floresta fechada que, naquele momento, eu intitulara meu "mundo mentido". óbvio que o termo foi extraido d'um livro do nietszche... "assim falava zaratustra". mas foi meu mundo mentido sim senhor! e dele jorrara, o que agora, neste momento que escrevo, o embrião para o que fui, o que sou e o que não sei mais.
"viagem a andara" dá sentido, conecção à estes dois mundos que se submergem em nós, o exteriorizado e chato e o que se dilata dentro de nós mesmos e passa imperceptível como o raio de um sol diário.
e eu nem sabia o que era uma viagem!
rogério s.
Fonte das constelações
Sem semear ossos no fim da tarde
e vindo ao encontro dos teus olhos nos Caminhos das espreitas,
eu busco
o segredo luminoso
da
Tua
Água
Soprando as cinzas,
mais humano que o Limo
Este é o Passo de Sombras
Esta é a Noite em que o céu virá beber nosso rumor de terra
Aqui
Eu espero
Como uma Construção erguida para baixo
rio em Silêncio, e serpentes: A Palavra
interminável
mente
DO ABISMO ÀS MONTANHAS
213
calada
mente de Aves Profundas
e um Carrilhão de Luz
soando na Penumbra dos Seus Olhos,
dAquilo que escurece
as manhãs de cinzas
as pedras dos dedos da Oração
quando o mais Alto se ergue
e depõe o Muro Branco das Idades
como Transparência
no deserto Inundado
dos Teus sonhos: Cílio
da Carne,
e Rumor de Bosque Escuro
Curva dos Lábios
que não dizem – Rio
lá, onde
a Água Escura de um Abismo
Via gem a Anda nda ra oO Liv ro Invis ível
214
Aquele que teve os olhos Selados
já não aguarda a Aurora das Virtudes: o Guardião de Sombras
(fragmentos do livro "viagem a andara")
Vicente Franz Cecim é jornalista e escritor. Nasceu em Belém do Pará, Brasil, na Amazônia. Há 25 anos, desde 1979, deu início à criação do não-livro Viagem a Andara, o livro invisível que vai se fazendo dos livros visíveis de Andara que escreve. Andara é região-metáfora da vida, em que o autor transfigura sua Amazônia natal. Sob o título abrangente acima citado, já foram publicados, em diversos volumes: A asa e a serpente/Os animais da terra/Os jardins e a noite/Terra da sombra e do não/Diante de ti só verás o Atlântico/O sereno/As armas submersas (reunidos em volume único (Iluminuras, 1988, São Paulo), com o título Viagem a Andara, o livro invisível e agraciado com o Grande Prêmio da Crítica da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte)/Contando estas histórias para nada/Silencioso como o Paraíso após a expulsão das criaturas humanas/Contando estas histórias para ninguém/Diálogo dos comediantes (reunidos em volume único (Iluminuras, 1994, São Paulo), com o título Silencioso como o Paraíso)/Ó Serdespanto/Música do sangue das estrelas (em volume único (Íman Edições, 2001, Portugal), com o título Ó Serdespanto). Em novas edições (Cejup, 2004) lançou os volumes A asa e a serpente e Terra da sombra e do não, o primeiro contendo os 3 primeiros livros visíveis de Andara e o segundo os 4 livros escritos que a eles se seguiram, em versões finais, revistas e transcriadas pelo autor.
Tem inéditos três novos livros visíveis de Andara, que denomina de Iconescrituras: K O escuro da semente/Breve é a febre da terra e oÓ: Desnutrir a pedra..
andara@nautilus.com.br
vfcecim@hotmail.com
www.culturapara.art.br/vicentececim
Rogério, desde então Andara andou e alguns dos passos dados podes encontrar nos meus blogs, um deles é esse ABAIXO
ResponderExcluircecimvozesdeandara.blogspot.com.br
aVe
Vicente Franz Cecim