Todo dia ela diz tudo sempre igual.



Aí ela virou e disse:

- Escreve um livro.

"Escreve um livro." , como se a City Lights ainda estivesse no auge e acolhesse qualquer vagabundo das estradas. Me disse assim com essa simplicidade, pior que não foi a primeira. "Escreve um livro" é uma frase que costumo ouvir em árabe, de repente minha audição entra em AM, rola essa disfunção e eu fico com cara de: "Oi? Do que você tá falando?" Com cara de choro de não ser suficientemente boa com as palavras nem pra fazer a réplica. "Escreve um livro", só dando uma risada. A literatura é o clube e eu sou Groucho Marx, qual é a dificuldade? "Escreve um livro" Sobre o quê caramba? Sobre o quê? Eu finjo que eu tenho assunto, eu juro, eu assumo aqui, olha como eu escreveria um livro se não tenho assunto, não tenho. Não leio o jornal, leio nos domingos a quando alguém aparece aqui em casa com um, pego direto a Martha Medeiros que me faz ter um domingo mais positivo e vou pras cruzadas, de vez em quando olho de relance o Paulo Coelho, esse domingo começava sobre algo com a Britney, tive que ler o Paulo Coelho falando da Britney, e gostaria imensamente de saber quem conseguiu realizar a façanha de não roubar na cruzada? Cruzada. é. Eu ultimamente tenho comprado a Coquetel, que na capa ainda trás as seguintes inscrições: Desafio Cobrão, atitude saudável com todas as letras, logo abaixo o nome da foto que estampa a capa, a minha é "O Vendedor de Limonadas", do pintor italiano, que me obrigou a pesquisar pra escrever essa merda, Lorenzo Tiepolo que nada existe no google, o que me fez rodar mais um pouco até chegar a conclusão da escolha dos temas das capas: Quadros Realistas com as cruzadas ao fundo. E sempre fico por uma ou duas, aí chuto e olho no final, óbvio, que não tenho cultura que abarque a seguinte informação: elemento usado em reatores nucleares? sabe? Então. Nessas curtas, olha a dica, eu me fodo quase sempre. Esqueci o que eu tava dizendo. No que esqueci lembrei. Esquecer é uma coisa muito interessante. Esqueci, dizemos, esqueci, que merda, esqueci. Esqueceu nada, taí, tanto que lembrei mais rápido do que esperava andam dizendo pra eu escrever um livro, não notando em meu rosto o embaraço diante do sacrilégio da frase. Pois bem, digam-me: se não é preciso ler toda a bibliografia do mundo, nem completar a Coquetel difícil sem roubar, eu já não sei mais do que sou feita. Eu, quieta, me achando a velhinha mais feliz do mundo, com a revistinha e o livrinho e o cházinho e toda a intolerância que um bom velhinho têm com o mundo rodando e ele morrendo e vocês me dizendo pra escrever livro.

Gente engraçada.

Observação sem importância: Neste dado momento está tocando Still loving you, do Scorpion na M2 Purple, live from Paris. ( Que têm como residência: www.m2radio.fr )

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